Josy Mello Psicóloga | CRP 06/210801

Quando uma crítica parece provar que você não é bom o suficiente

Por que algumas críticas machucam tanto?

Você recebe uma crítica. A conversa termina em poucos minutos, mas continua ocupando espaço na sua mente pelo resto do dia. Às vezes, por dias ou semanas.

Você repassa o que aconteceu, imagina o que deveria ter respondido e começa a questionar a si mesmo.

Se isso acontece com frequência, talvez o sofrimento não esteja apenas na crítica. Talvez ele esteja na forma como sua mente interpreta o que aconteceu.

Segundo a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), não reagimos apenas aos acontecimentos, mas também ao significado que atribuímos a eles. Quando uma crítica é interpretada como sinal de fracasso, rejeição ou incapacidade, ela tende a provocar ansiedade, vergonha e autocrítica. A crítica deixa de ser uma informação sobre algo que fizemos e passa a parecer uma definição de quem somos.

As neurociências ajudam a entender por que isso acontece. Pesquisas mostram que a rejeição e a desaprovação social podem acionar circuitos cerebrais semelhantes aos envolvidos na dor física. É como se o cérebro utilizasse um sinal de dor para alertar quando nossa aceitação está em risco. É por isso que o impacto de uma crítica não é apenas psicológico. Muitas vezes, ele é vivido como uma dor genuína.

Mas existe um detalhe importante: duas pessoas podem receber exatamente a mesma crítica e reagir de maneiras completamente diferentes. Isso acontece porque não interpretamos os acontecimentos de forma totalmente objetiva.

Ao longo da vida, construímos crenças sobre quem somos. Algumas pessoas aprendem a enxergar erros como parte do aprendizado. Outras passam a acreditar que errar significa ser inadequado, incapaz ou insuficiente.

Quando uma crítica toca esse tipo de crença, ela pode ganhar um peso muito maior do que realmente tem. Em vez de avaliar um comportamento específico, a pessoa passa a julgar o próprio valor.

A diferença entre sofrimento e aprendizado muitas vezes está justamente aí: entre pensar "cometi um erro" e concluir "sou um fracasso".

E quanto mais nosso valor pessoal depende da aprovação dos outros, mais vulneráveis nos tornamos a críticas, opiniões e rejeições.

Um convite à reflexão

Na próxima vez que uma crítica o incomodar, faça uma pausa e pergunte a si mesmo:

Estou avaliando um erro ou transformando esse erro em uma definição sobre mim?

Essa simples distinção pode mudar a forma como você processa a experiência.

Flexibilidade psicológica não significa gostar de críticas ou se tornar indiferente a elas. Significa conseguir avaliá-las sem transformar cada erro, discordância ou desaprovação em uma prova de inadequação. Uma crítica pode trazer informações úteis. Mas ela não deveria ter a última palavra sobre quem você é.

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Quer explorar mais este tema?

Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso, de Carol S. Dweck.

Uma leitura acessível e baseada em décadas de pesquisa sobre como nossas crenças influenciam a forma de lidar com erros, desafios e críticas.

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Referências

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

DWECK, Carol S. Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

EISENBERGER, Naomi I. The neural bases of social pain: evidence for shared representations with physical pain. Psychosomatic Medicine, v. 74, n. 2, p. 126-135, 2012.

SAPOLSKY, Robert M. Comporte-se: A Biologia Humana em Nosso Melhor e Pior. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

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Josy Mello
Psicóloga | CRP 06/210801